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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

19
Jun17

A culpa é do Prometeu

 Diz a lenda que Zeus, como homem inteligente e astuto que era, condenou Prometeu a uma pena de prisão de trezentos mil anos no cume de um monte. Durante o tempo da pena, viria uma águia dilacerar-lhe o fígado todos os dias, embora este se regenerasse sempre. Porquê um castigo tão severo? O que é que Prometeu fez de tão grave que lhe pudesse valer tal fado? Deu o fogo aos homens. 

 

O fogo é, possivelmente, uma das minhas maiores fobias. Durante mais de metade da minha vida tinha aquele "medo comum" do fogo. Tinha medo de me queimar, tinha medo de pegar fogo ao cabelo... aquele medo "normal", que não é significativo ao ponto de nos pormos em pânico. Era aquele respeito, tal como tenho ao mar, porque não sei nadar bem. No entanto, houve um momento em que esse "medo normal" deixou de o ser. 

 

 

Há poucos anos atrás - já não sei precisar quantos - o meu pai estava a fazer um turno de 24 horas, a minha mãe estava a fazer o almoço cá em casa e eu estava no escritório a jogar Sims 2. O meu irmão vinha almoçar comigo e com a minha mãe e por isso, foi uma ótima desculpa para pedir bifes com batatas fritas para o almoço. Não havia pão e cá em casa, não se come sem pão. A minha mãe foi comprá-lo e disse-me "Vou lá acima num instante comprar pão e venho já. Toma conta das batatas." Eu disse que sim, mas não ouvi nada. 

 

A partir daqui, não sei bem quanto tempo passou. Tinha música alta, mas mesmo assim dei por barulhos estranhos, parecia coisas a cair no chão e a partir. Chamei a minha mãe e ninguém respondeu. Levantei-me e espreitei para o corredor e da porta da cozinha vi uma nuvem imensa de fumo negro. Corri para a cozinha e só me lembro de ver chamas. Os cortinados, as prateleiras, os armários, tudo ardia. Os azuleijos caiam no chão com o calor e as lâmpadas dos cadeeiros de teto estilhaçavam-se pelo chão. Lembro-me de não ser capaz de respirar e estar tão rodeada de fumo negro que não conseguia ver janelas ou a porta para sair dali. Vi que as chamas estavam a chegar ao esquentador e ao frigorífico. Olhando para trás acho que houve um momento em que pensei "vou ficar aqui". Por milagre, não fiquei. 

 

Lutando contra a vontade de desmaiar alcancei a porta da cozinha e saí a correr e a gritar o mais alto que pude. O meu milagre foi, naquele momento, ver chegar a minha mãe com o meu irmão. Ainda hoje não sei como, mas eles os dois conseguiram apagar todo o fogo com mangueiras e cobertores encharcados. Nessa noite ouvia minha mãe contar ao meu pai "mais um bocadinho, ficavamos sem casa e ela ficava lá dentro". Nunca mais me esqueci destas palavras. 

 

Os meses seguintes foram complicados. Não conseguia dormir porque fechava os olhos e só via o fogo. Sonhava que lá ficava. O cheiro a queimado ficou pela casa, pelo menos, durante um mês. Todas as roupas dentro de todos os armários tinham cinza. A nossa cozinha ficou desfigurada. Alguns anos depois já temos uma cozinha linda outra vez, mas o pânico ficou cá para sempre. 

 

O ano passado, os meus pais estavam de férias no Algarve e eu fiquei em casa sozinha. Estava a almoçar quando o meu pai me liga e me pede "vai à varanda e vê lá se vês algo estranho". Quando abri a porta da varanda, o meu coração parou. Tinha um fogo a poucos metros de casa. Felizmente, foi rapidamente controlado e em cerca de três ou quatro horas, estava extinto. Durante esse tempo eu tremia, chorava, em pânico. 

 

O que aconteceu este fim de semana é um verdadeiro pesadelo que ainda parece mentira. Ver aquelas imagens é como ver um filme apocalíptico. Oiço aqueles relatos, vejo o desespero das pessoas e dos próprios bombeiros e tenho vontade de chorar porque nem consigo sequer imaginar o meu sofrimento de três ou quatro horas multiplicado por dez. Não consigo sequer imaginar o que teria sido de nós se no momento em que saio a porta da cozinha eu tivesse fugido e quando voltasse, a minha casa já não aqui estivesse. 

 

Coisas como o que aconteceu este fim de semana lembram-nos da nossa pequenêz. A Mãe Natureza foi-nos dando vários avisos, coisas mais ou menos subtis, e nós fizemo-nos de surdos. Tal como os humanos, quando não somos ouvidos, gritamos. Foi o que ela fez, para nos lembrar que nós e todas as nossas obras e invenções não valem absolutamente nada. Em segundos, desaparecemos. Nós, os nossos carros, as nossas estradas, as nossas casas. 

 

Prometeu deu o fogo aos homens para que estes se sentissem superiores aos animais. Começou aí o nosso mal, não só por termos tipo acesso ao fogo, mas também porque começou logo aí a nossa estúpida mania de sermos invencíveis quando na realidade, nada pudemos contra chamas de sessenta metros. 

Temos que ouvir a natureza. Temos que olhar para a nossa vida, para os nossos hábitos e para as nossas propriedades de forma a precaver o mais possível situações como esta. Temos que impedir que isto seja uma roleta russa, só porque aquele raio poderia ter caído em qualquer lado. 

 

Ontem quando deitei a cabeça na almofada senti-me profundamente grata por ter passado um dia na piscina com os meus tios, com os meus primos, com os meus pais e as minhas avós. Senti-me profundamente grata por ter tido a sorte, em dois momentos nos últimos anos, de não ter chorado a perda de nada nem de ninguém por causa do fogo.

 

 

Hoje eram 7h15 da manhã quando saí de casa para ir à faculdade. Quando abri a porta de casa e senti cheiro a terra molhada, pela chuva que tinha caído horas antes, ia chorando de alegria. 

 

Pedrógão Grande é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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