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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

19
Mai17

A minha geração não presta

Apesar da experiência traumática, adorei escrever o post de ontem. Adoro quando consigo escrever-vos um post que não é só engraçado como também pessoal. Essa é uma das coisas que, por muito que o blog cresça, eu quero muito manter: os posts que, mesmo que sejam intercalados com outros de outro teor, tenham sempre muito de mim. Sempre foi esse o grande objetivo deste blog. 

É verdade que hoje também tinha outra história engraçada para vos contar - curiosamente, relacionada com animais mais uma vez. No entanto, não sei se é o meu subconsciente a querer evitar que por dois dias seguidos se fale do mesmo assunto, mas a verdade é que hoje parece que por muito que tente não consigo escrever sobre outro assunto que não este: o caso da Queima das Fitas do Porto. 

 

Em conversa com o meu Rapaz sobre o assunto tinha comentado com ele como já tinha imposto a mim própria que não ia contaminar o meu blog com um assunto que tem tanto de triste como de desumano. Hoje tinha até um novo post de Sem Spoilers - e até bem interessante - para partilhar com vocês, mas se sinto que afinal tenho algo a dizer sobre este caso, acho que não devo estar a contrariar as palavras que querem sair. 

Eu ando de autocarros todos os dias. Desde que estudo que ando, no entanto, só este ano é que comecei a ter que frequentar os autocarros urbanos. Uma coisa que me apercebi: comparativamente com o metro, os autocarros têm muito mais gente inconveniente por metro quadrado. Demorei algum tempo a habituar-me a isto e fico verdadeiramente incomodada quando não me consigo sentar no único lugar em que nunca tentaram interagir comigo - vamos chamar-lhe assim. 

Já assisti a discussões de namorados, às vezes ouve-se alguém a arrotar alto e bom som mesmo ao nosso lado, ou até ver o vizinho a levantar ligeiramente o traseiro para se aliviar - também em alto de bom som. Para além destas situações que nos fazem perguntar porque é que não esperam mais um bocadinho e fazem aquilo em casa, já houve também momentos em que me senti com medo. 

Algum homem visivelmente alcoolizado que se senta à minha frente ou no banco do lado e começa a chamar-me. Ou a comentar a minha roupa. Alguém que repara que estamos a ficar incomodados e mesmo assim parece que se recusa a tirar os olhos de nós. Alguém que aproveita as horas de ponta para se chegar demasiado. Temos de tudo, e eu já senti medo. 

Custa-me que quando vou a uma loja e vejo uns calções curtos ou uma camisola mais decotada, opte por não a comprar porque a semana tem 7 dias, 5 deles ando nestes autocarros e era incapaz de usar algo que chamasse a atenção. Numa viagem ou duas já tive que chegar ao ponto de pôr o cabelo a cobrir o peito, mesmo que não dê por nenhuma situação incómoda. 

Se calhar estou errada. Se calhar esta minha atitude passiva não ajude ao panorama em que o género feminino vive. Se calhar não devia pensar nestes constrangimentos quando vou às compras - de forma a deixar de os ver como constragimentos. Lamento dizer que ainda não sou capaz, porque quando vemos uma notícia como a do caso da Queima das Fitas, percebo que ainda há razões para ter medo. Não só pela situação em si, mas também pela forma como vemos tanta gente reagir à notícia. 

Uma das opiniões mais elogiadas que li até agora era de uma rapariga que dizia que apesar de não atribuir qualquer tipo de culpa à rapariga, pedia para que não fossemos hipócritas e fingissemos que nunca apanhámos uma bebedeira que nos impedisse de dar dois passos em frente. Quando li esta frase, não consegui ler mais. Não amiga, sou estudante e bebi o meu primeiro copo aos 15 anos. Já apanhei bebedeiras, mas sempre consegui andar, muito obrigada. No entanto, mesmo que não conseguisse, mesmo que terminasse a noite como aquela rapariga... isso não pode NUNCA ser razão para legitimar o que aconteceu. 

Quanto aos rapazes... bem, quanto a esses é difícil sequer arranjar palavras. Aqueles rapazes - e raparigas, aquelas que se riam e gritavam "ai que nojo!" enquanto tiravam uns snaps - são a razão pela qual toda a gente diz que a minha geração não presta. A parte triste é que cada vez mais, pessoas que tal como eu fazem parte dessa geração, vamos perdendo argumentos para defender as pessoas da nossas idade ou até os estudantes. 

Há pais que se endividam para poder pagar propinas aos filhos e depois numa festa académica, é este tipo de pessoas em que se vai tropeçando. Alguns deles se calhar até vão ser grandes profissionais... mas que tipo de pessoa, por dentro, vai ser alguém assim? Sabem do que me lembrei, curiosamente? De 13 Reasons Why. Lembrei-me de como aquele rapazinho todo bonitinho, com boas perspetivas de futuro, acabou por ganhar o hábito de violar raparigas. Não sei se é o caso, se calhar mesmo sem ter cometido o crime que cometeu, aquele animal e os seus colegas de estábulo já não eram nada da vida. Caso contrário, tiveram menos sorte do que o da série, que nunca se deixou apanhar em vídeo. 

Não quero comentar este assunto de forma demasiado profunda porque sequer pensar neste caso e na forma de como os media e as redes sociais estão a lidar com a situação, dá-me urticária. Espero que aquela rapariga não leia metade dos comentários que para aí andam e que saiba que nada disto é culpa dela. A única razão pela qual ela não deveria ter bebido tanto, era a ressaca monstra que viria no dia a seguir. Ninguém que começa a noite a beber copos deve esperar um fim destes. Muito menos rodeada de animais. Muito menos na internet. 

 

Animais de duas patas não são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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