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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

23
Set17

Como lidamos com a demência

Antes de mais, uma palavra para os últimos dois dias: WOW! É a palavra que provavelmente me tem saído mais da boca de cada vez que venho aqui ao blog. Decidi escrever sobre a minha avó e sobre a sua doença simplesmente pela razão que disse no post que lhe dediquei: por causa duma notícia que passou na televisão. Podia ter passado num dia em que eu tivesse aulas e se assim fosse eu já não a via. No entanto, aquela notícia deu num dos poucos dias da semana em que janto enquanto o jornal da noite está a dar. Foi um acaso.

 

O que este acaso me trouxe foi uma onde de amor e partilha completamente inesperadas. Estes últimos dois dias foram a definição daquilo que eu queria para o meu blog: que as pessoas lessem e não só gostassem como se identificassem. O que se passou desde quarta feira foi ainda mais que isso: recebi comentários que me emocionaram, que me tocaram profundamente e para isso não há palavras. Muito obrigada a todos pelas vossas palavras e por, pelo menos durante 24 horas, termos conseguido pôr a palavra "demência" numa página de internet com tanta visibilidade como a Sapo. 

 

Outra das coisas que adveio do meu post foram várias questões sobretudo relacionadas com o "como lidar", "ao que ter atenção" e "como é que este percurso começou". Visto que não achei que seria capaz de vos responder de forma clara e com a maior informação possível num simples comentário, faço este post em que vos vou contar um pouco sobre o que temos feito nos últimos dez anos para tentar remediar os efeitos desta doença. 

 

Houve pessoas que me perguntaram como é que conseguimos levar a minha avó ao médico pela primeira vez de forma a conseguir detetar o problema porque têm familiares que se recusam a dar esse primeiro passo. Felizmente, para nós, esse não foi o problema maior. Muito maior que esse foi, por exemplo, fazê-la deixar de conduzir. Ela notou que o facto de deixar de conduzir era uma clara perda de independência e por isso foi muito complicado. Ficou chateada e refilava, mas essa era uma daquelas coisas que não podíamos deixar que continuasse. 

 

A primeira ida ao médico foi fácil porque a minha avó se começou a queixar muito de "apitos nos ouvidos". Ao início isto pareceu-nos apenas uma consequência da velhice - e agora sabemos que não tem diretamente a ver com a demência -, mas foi o que a fez ter vontade de ir ao médico. Neste momento da história nem nós tinhamos ainda noção do que se começava a passar com ela. Desta consulta por causa dos ouvidos surgiu um pedido para fazer uma TAC à cabeça e aí deparámo-nos com um novo cenário. 

 

O tipo de demência da minha avó é de origem vascular. Durante anos e anos ela tomou anti-depressivos e comprimidos para baixar a tensão e tudo isso, com o tempo, fez com que ela tivesse vários pequenos derrames no cérebro. Picos de tensão - quer altos, quer baixos - provocavam este tipo de reações e essas células do cérebro afetadas pelos pequenos AVCs acabaram por ir morrendo ao longo do tempo. Tendo em conta que não se regeneram, essas partes do cérebro ficam mortas para sempre. 

 

O ir ao médico não foi, portanto, um problema. Ainda hoje, em que a sua memória está claramente mais afetada, ela há dias em que tem noção que algo está errado. Se ela vê que está de noite e percebe que não faz ideia do que comeu - ou sequer se comeu - ao almoço, ela apercebe-se que a memória não está bem. Claro que há dias em que ela diz que eu e a minha mãe é que a deixamos maluca, que dizemos que ela fez coisas que não fez, mas de uma forma geral ainda é fácil convencê-la a ouvir-nos. 

 

Outra coisa que começámos ter especial atenção foi aos comprimidos receitados. Perante a situação, em que já nada a deixa muito feliz nem muito triste, os anti-depressivos que a acompanhavam há anos foram os primeiros a serem riscados da lista. Simplesmente não fazia sentido. É verdade que este tipo de doenças pode fazer com que as pessoas se isolem e deixem de conversar e sorrir, mas no caso dela, os anti-depressivos não se encaixavam porque já nada a afeta de tal forma que se tenha de recorrer a químicos. 

 

Estanto os anti-depressivos fora do menu era necessário agora ver os comprimidos para a tensão. Medimos-lhe a tensão todos os dias e consoante o valor decidimos se deve ou não tomar o comprimido para baixar a tensão. Esta é para nós uma medida essencial porque, no caso dela, foram anos de tensão descontrolada que estiveram na origem da demência. Visto que não existe medicação para retroceder nos avanços da doença podemos pelo menos arranjar as nossas maneiras de tentar fazer com que ela não avance. 

 

Neste momento - tirando o comprimido da tensão, que só toma se os valores assim o exigirem -, só lhe damos produtos naturais. Toma um suplemente alimentar, tipo vitamina; toma Still Noite para a ajudar a dormir de noite; e toma algo tipo aspirina cujo objetivo é diluír o sangue de forma a evitar esses pequenos AVCs. Tudo isto deve estar a par de um acompanhamento da dieta para evitar diabetes ou colesterol e tudo o que possa dar origem a esses derrames. Esta é ainda a parte mais difícil: não conseguimos estar a todos os momentos com ela e mesmo que elas nos diga que cozeu uma posta de bacalhau com bróculos é difícil ter a certeza. Pode simplesmente ter passado o dia a comer pão. 

 

Tirámos muita coisa lá de casa: bolachas, pão branco, sobremesas - que mesmo assim ela de vez em quando ainda tem a mania de comprar -, carnes vermelhas, açucar e até as caixas de comprimidos. No entanto, os perigos continuam lá. Houve momentos em que ela saiu de casa sem dizer e voltou porque alguém conhecido a encontrou - para isso existem as pulseiras da GNR com GPS destinadas a crianças e idosos; já teve medo de ficar a dormir na própria casa porque dizia que de noite lhe entravam homens em casa - foi aqui que lhe começámos a dar o Still Noite, com o qual se dá muito bem; já sugerimos que fosse passar o dia ao centro de dia da terra, vindo dormir a casa, para evitar que mexa no fogão, mas muito mal disposta diz logo que temos tempo de a pôr lá quando for velha - e tem 81 anos. 

 

Por todas estas razões volto mais uma vez a sublinhar a chave para este problema, visto que nada o pode travar - paciência e atenção. A demência não se vê: não faz manchas na pele, não aparecem altos no corpo, não faz dores, nada. Se não estivermos atentos há muita coisa que nos pode passar ao lado e quando damos por isso já estamos a lidar com uma doença em estado avançado. Tivemos que fazer obras na casa dela em que tirámos esquentador para substituir por uma caldeira, de forma a evitar que ela mexesse em gás, tivemos que lhe explicar vezes e vezes sem conta que ninguém lhe estava a deitar a casa abaixo, estávamos a pô-la mais bonita. Tanto ela como nós temos de nos adaptar à nova condição, mas sobretudo nós porque somos os únicos que sabemos o que se está a passar. 

 

O meu conselho é que falem com eles. Conversem e tentem explicar o que se passa. Se não conseguirem digam que é só uma ida ao médico para ver como é que está tudo, porque isso é importante. Se desconfiam que alguma coisa se passa, dirijam-se a um médico especialista. Com as informações que vos derem tratem de as adaptar ao vosso familiar porque só vocês o conhecem. 

 

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Eu tenho 22 anos e trabalho em museus portanto o meu conhecimento é quase nulo. No entanto, esta é a minha experiência, isto é o que nós fazemos e mesmo nos dias maus - que os há, tanto para ela como para nós - temos que ter muita calma. O melhor conselho de todos? É amor. Que dêem muitos abraços, que os façam rir, que se sentem um bocadinho na sala com eles... qualquer coisa. O amor não cura este tipo de demência nem os outros, mas é a melhor forma de tentar levar estes problemas. 

Mais uma vez, muito obrigada a todos pelas mensagens e espero que, de alguma forma, tenha ajudado alguém com o meu testemunho. 

 

Cuidar é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

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