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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

06
Nov17

E quando pensamos em desistir?

É verdade, isso aconteceu. É tão verdade quanto aquela coisa do "nunca digas nunca", que também é uma parte importante de toda esta história. Quando eu era pequena fui daquelas crianças que começou a falar muito cedo. Se ver uma pessoa de estatura pequena a falar é sempre engraçado e às vezes surpreendente, muito mais engraçado se tornava quando eu começava a tentar falar como os adultos. 

 

Só para verem, até me lembro de uma vez ter perguntado à minha mãe se podia usar a palavra "felizmente" ou se se iam rir de mim porque era "palavra de adulto"! - mas não é dessa vez que vos quero falar. Quero-vos falar duma ocasião em que estava a almoçar cá em casa, à mesa, com os meus pais e o meu irmão. Lembro-me de vermos uma notícia que falava dos chumbos no ensino superior e lembro-me de ter dito que não compreendia como aquilo seria possível. O meu irmão respondeu-me logo que claro que aquilo era possível porque a faculdade é muito difícil e aí eu expliquei-me melhor: "pode ser mais difícil, mas a faculdade não é obrigatória. Se só vai para lá quem quer, não deveriam haver tantos chumbos." 

 

Na altura, toda a gente achou imensa graça àquilo que eu tinha dito. Se eu ouvisse uma criança dizer isto provavelmente também acharia graça. No entanto, sei que na minha cabecinha de boa aluna do básico eu estava a pensar que queria ir para a faculdade, ir para o mestrado, ir para o doutoramento e fazer tudo o que houvesse para fazer. Que nunca iria desistir. É precisamente aqui que entra o "nunca digas nunca".

 

Já aqui falei várias vezes das dificuldades que ando sentir em adaptar-me ao mestrado. Tentei então olhar para essas dificuldades e torná-las incentivo, para ler mais, para conhecer mais e para me ajudar a fixar conceitos que acho essenciais e que sei que os meus colegas já têm, pelo seu historial académico que, em certos casos, não poderia ser mais diferente do meu. 

 

Achei que as coisas estavam a correr melhor, sentia-me mais confiante e estava - como se costuma dizer - em cima do acontecimento. Até que na semana passada, durante uma aula, aconteceu outra daquelas coisas que o meu eu pequenino, melhor aluna da professora, acharia que NUNCA iria acontecer: discuti com um professor. É verdade. Acreditem que, para mim, isto seria totalmente impensável porque sempre fui aquela aluna que se esforçava tanto para se portar bem que iam sempre dizer aos meus pais que eu tinha que participar mais. Na semana passada, teve que ser. 

 

Já eram várias as aulas em que saía com mais perguntas do que aquelas com que saí e durante aquela aula tive que falar. Estava a fazer-me confusão como é que um grande profissional da área me estava a mostrar algo e dizia "isto é preto" e eu, pura e simplesmente, via branco. Se até aqui eu fui humilde o suficiente para reconhecer que estou ali a aprender e fui absorvendo tudo o que pude, ali sentia que não estava confusa por não ter bases ou nunca ter ouvido falar do tema - era mesmo porque não concordava. 

 

E falei. E o professor falou também. E eu falei mais uma vez. E por aí fora. Saí de lá de rastos e comecei a repetir coisas muito perigosas na minha cabeça. Comecei a pensar que, se calhar, é demais para mim. Se calhar não tenho capacidade intelectual para isto, para continuar na academia. É por isso que só houve um Camões e só um Pessoa. Não podemos ser todos brilhantes nestes campos da teoria e se calhar eu faço parte do conjunto de pessoas que não vai ser brilhante. 

 

give up GIF

 

Pensei mesmo em desistir depois desta situação, associada a todas as dificuldades que tenho vindo a sentir e que tentei pôr para trás. No fundo sabia que essa desistência não ia efetivamente acontecer, mas é verdade que me passou pela cabeça. Entretanto já fiz outro trabalho que quase me levou às lágrimas, tanta era a insegurança relativamente ao que estava a escrever. E hoje lá vou eu outra vez. 

 

Escrevo este texto para que eu o possa voltar a ler no dia em que entregar a minha tese de mestrado, porque, no fundo, eu sei que vou lá chegar. Pode ser a duvidar de mim todos os dias e a levar na cabeça dos meus professores, por não ser capaz de "chegar ao ponto da questão", mas eu sei que hei-de chegar. Eu pensei em desistir, pela primeira vez na vida, mas não o vou fazer... porque senão, o que pensaria a miúda que ouviu aquela notícia na televisão há uns 18 anos atrás?

 

Desistir não é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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A Marta

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@mcarmeziim

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