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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

07
Set17

Este é que foi o confronto do ano!

Já muitas vezes me auto caracterizei aqui como sendo uma pessoa que, em certas coisas desta vida, pode ser de extremos. Tudo é muito muito - embora menos do que era antes. Há momentos em que consigo levar as coisas com calma, respirar fundo e deixar-me ir com a onda. Há vezes até em que vejo algo e digo apenas "uau, muito bom mesmo!", sem entusiasmos excessivos capazes de causar surdez na pessoa do lado. Não é por gostar menos do que, sei lá, o Titanic, por exemplo - é mesmo porque, naquela altura, consegui olhar para algo com o distanciamento com que as pessoas normais olham para as coisas. 

 

Há vezes, portanto, em que consigo pôr o lado mais racional do meu cérebro a trabalhar. Noutras, nem por isso. No que toca aos animais e outros obstáculos com que me vou cruzando no meu caminho para casa, já sabem - são sempre posts que vocês adoram que eu partilhe - que o lado emocional fala mais alto. Na maior parte das vezes acho que o facto de ser uma pessoa extremamente sensível e emocional é uma das minhas maiores qualidades. Nestes casos, especialmente se houver um autocarro à mistura, o ser sensível, emocional e consequentemente não-assim-tanto-racional pode prejudicar a sério. Eu disse a semana passada que vos contaria esta história e aqui está ela. 

 

Acordo cedo todos os dias úteis da semana. Com o tempo fui-me levantando mais e mais cedo estanto neste momento acordada cerca de uma hora antes do autocarro que preciso de apanhar. Cheguei à conclusão que não é por mais quinze minutos na cama que vou ficar com menos sono ou mais bem disposta. Por seu lado, descobri que o que realmente contribui fortemente para que o meu humor melhore logo pela manhã, evitando pensamentos pouco felizes em que me lembro do conforto da minha cama, é ter uma manhã calma. Aprendi a não fazer nada, mesmo nada, com pressa durante a manhã. Tenho um minuto específico para sair de casa porque sei que é precisamente aquela conta certa para não esperar demasiado tempo na paragem - especialmente se o banco estiver húmido do orvalho da manhã e eu não me poder sentar. 

 

Como podem ver, a minha manhã tem tanto de rotineira - e eu adoro rotinas! - como tem de pensada até ao mais ínfimo pormenor - ou pelo menos achava eu. Voltei a ver Narcos no passado domingo e há uma coisa que aprendi: ter algo planeado "até ao mais ínfimo pormenor" não é fazer com que tudo corra bem quando as condições para alcançar o objetivo são as ideais. Ter tudo, mas mesmo TUDO planeado, é conseguir alcançar o objetivo mesmo em condições adversas. As condições ideais são as manhãs normalíssimas, independentemente do sono que tenha; o objetivo é apanhar o autocarro; as condições adversas são canídeos. 

 

Adoro cães, adoro mesmo. Eu e o meu Rapaz gostamos tanto e queremos tanto um dia ter os nossos que sempre que vemos um cão chamamos-lhe, com o maior dos carinhos, um puppy. Do dogue alemão até ao pug - para nós, são todos puppies e nós adoramo-los. O que nos faz gostar tanto deles são as brincadeiras, os saltinhos, até as lambidelas. Tudo o que não envolva, obviamente, tentativas de me abocanhar a perna. Já tenho a pele seca que chegue, muito obrigada, não preciso que nada nem ninguém me tentem esfolar por cima. 

 

Numa dessas manhãs calmas saí de casa no tal minuto ideal - nem mais, nem menos. Nunca olho para trás quando saio a porta de casa, mas por acaso, nesta manhã, olhei e vi que, lá longe - no também já ínfame caminho das cabras - estava um desses canídeos para os quais não há paciência e eu explico-vos porquê. Nunca ninguém lhes fez mal, no entanto, ladram feitos desalmados à vossa passagem; levam o vosso cão à loucura; já vos tentaram morder; entre outras pérolas que não quero relembrar. Como qualquer pessoa normal comecei a ter algum receio da sua presença indesejável depois de ter visto a minha canela direita em perigo. 

 

Vendo-o no caminho das cabras pensei "bem, estás ainda a uma boa distância, posso continuar em frente a caminho da paragem e não olho mais para ti." Eu, ter aquele cão atrás de mim e achar que ia andar em frente sem olhar para trás? Escrevendo isto agora não posso deixar de me rir por, na altura, ter achado que ia conseguir cumprir essa promessa autoimposta. Obviamente que comecei a andar rápido demais e a olhar para trás de cinco em cinco metros. Ele continuava a uma boa distância de mim, mas vendo-me a andar cada vez mais rápido, começou a seguir-me - também ele cada vez mais rápido. 

 

De respiração ofegante e coração a bater demasiado rápido para aquela hora da manhã tentei lembrar-me de uma regra que impus a mim própria nestes dramas que tenho com os animais que vivem perto de mim - se tiveres que fugir, foge para a frente. Desta forma evito voltar para onde parti, traduzindo-se isso ou em voltar para casa e precisar de sair ou precisar de chegar a casa e ir dar uma volta do caraças para lá chegar. Aqui, tendo a manhã toda programada ao minuto, era imperativo fugir em frente. Foi isso que fiz... ou tentei. 

 

O animal pode ser irritante e quiçá até parvo de todo, mas não é estúpido. Este, já o comprovei várias vezes, parece ler-me os pensamentos e fazer de tudo para me lixar. Obviamente que ouvindo-me dizer mentalmente para seguir em frente, ele avança no seu plano maquiavélico de me aterrorizar e troca-me as voltas: do nada manda um sprint até estar uns três passos à minha frente. Volta-se de frente para mim e parecia ter ficado à espera da minha reação. "Vá, olha em frente e passa por ele!" Coitada. Ficámos ali, uns segundos a olhar um para o outro enquanto ganhava cojones - desculpem, é por estar a ver Narcos - para seguir em frente.

 

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Nem cheguei a dar um passo de verdade. O meu corpo balançou apenas uns centímetros para a frente, anunciando o meu próximo movimento, e assim que o fiz o terror mostrou mais os dentes do que eu quando vou fazer uma destartarização. Vi cada canino afiado acompanhado por um rosnar ainda menos simpático que o ladrar anterior e os olhos - imaginei eu - estavam colados à minha canela direito, estilo "deixei-te ir uma vez, não te volto a largar da próxima!"

 

Dei um gemidinho e fiz a única coisa que me restava fazer: voltar costas e voltar para casa. Ele lá ficou, o estúpido. Digam-me se isto não é gozar com uma pessoa - ele sabia que eu tinha de ir por aquele lado e por isso é que me aterrorizou. Se fosse só pela vontade de ladrar às 7h da manhã, também teria ladrado quando mudei de direção. Claramente, foi só para chatear e me pôr nervosa. Resultado: obviamente que perdi o autocarro. 

 

Como se tudo isto não bastasse ainda tive que passar a vergonha de dizer aos meus pais e ao meu Rapaz que tinha perdido o autocarro por causa da porcaria do cão... mas é que desculpem lá, eu pago 70 euros em depilação a laser e isso é demasiado dinheiro para deixar um cãozeco ficar com parte da minha canela pele de bebé. 

 

Perder autocarros é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta. 

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