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(Sinónimo de) Carmezim

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16
Mar17

Guardado na estante #2 | Admirável Mundo Novo

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 Ontem foi dia de arrumar "Admirável Mundo Novo" na estante e estive mesmo para não escrever sobre ele aqui no blog. Não porque não tenha gostado - quanto muito, será precisamente pela razão contrária -, mas porque não sinto que esteja preparada para falar sobre ele de forma sólida tendo apenas lido a obra uma vez. 

 

É, sem dúvida, um livro a que quero voltar porque durante 300 páginas foi uma história que me intimidou. Foram poucos os livros que surtiram esse efeito em mim. Durante dois dias senti que devia abrandar o ritmo com que estava a consumir a história, precisamente para me dar tempo de a digerir - e preparar para o que aí vinha, mesmo não sabendo ao certo o que isso seria. 

 

 

O ano passado, quando li "1984", senti exatamente a mesma coisa - não fossem estes dois livros a sombra um do outro. Quando terminei a obra de George Orwell sabia que queria partir para "Admirável Mundo Novo", mas isso tardou a acontecer, ao ponto de me ter mesmo esquecido do livro. Voltei a ouvir falar dele no dia 20 de janeiro de 2017, quando algum comentador político falava sobre a eleição de Trump. Comprei o livro imediatamente para perceber a ligação entre uma coisa e outra e foi quando a percebi que o livro me foi assustanto mais e mais a cada página. 

 

Em "Admirável Mundo Novo" vemos retratada uma sociedade que se vergou - e quebrou mesmo - perante um regime totalitário cujo objetivo primordial é a organização extrema das castas sociais. Este regime totalitário baseia-se nos princípios da estabilidade, comunidade e organização, retirando aos indivíduos tudo aquilo que um dia tornou os seus antepassados únicos, diferentes uns dos outros. A sociedade de "Admirável Mundo Novo" acenta no desenvolvimento desmedido da ciência e da tecnologia, das quais os cidadãos se tornaram escravos, mesmo que não se apercebam que tal lhes aconteceu. 

 

Nesta obra, uma das coisas mais chocantes e arrepiantes - que também deve muito à escrita acutilante de Huxley - é o facto de os indivíduos terem a informação a seu dispor e por ela terem um desprezo completo, quase de repulsa. Um dos momentos que mais gostei no livro, mais para o fim, é precisamente uma conversa entre um selvagem - um indivíduo "igual a nós", séc. XXI, que leu Shakespeare toda a vida - e o próprio tirano por detrás daquela horrível realidade. Nesta cena vemos discutido aspetos muito pertinentes como a religião ou o desaparecimento de grandes clássicos da literatura, que aquela sociedade iria desprezar mesmo que lá existissem. O mais arrepiante: aquelas pessoas foram formatadas desde o momento em que foram fabricadas - sim, é o termo certo - e por isso, a repulsa que sentem pela informação, pela arte, pelos valores familiares, pela liberdade de expressão é para elas algo natural, que foram convencidos a acreditar ter nascido com elas. 

 

Este livro foi escrito após Roosevelt, após Hitler. Para Huxley, o mundo estava a caminhar lentamente para um beco sem saída onde a melhor forma de governo fosse o autogoverno, a oligarquia, porque já ninguém queria escolher em quem votar. Hoje, felizmente, já passou Roosevelt e já passou Hitler. Então, porquê falar neste livro?

 

Bem, devemos falar neste livro porque para Huxley, os regimes totalitários do futuro teriam como principais armas a ciência e a tecnologia, que iriam dar à sociedade uma oferta tão grande no que consumir, que esta nem se iria aperceber que estava a ser condicionada ou a ser alvo de pressões psicológicas. Em Huxley vemos uma espécie de LSD tomada por todos os "bons cidadãos" para sentirem uma sensação de felicidade constante, quando na verdade estão apenas a tornar-se mais alienados dos horrores que se passam à sua volta. Hoje, a "felicidade" das pessoas pode muitas vezes ser sinónimo de uns likes - não será isso tão irreal ou temporário como um comprimido? - e às vezes essas plataformas são as únicas maneiras que temos de permanecer em contacto com alguém. Esta alienação leva consequentemente a um desinteresse pelo que nos rodeia, incluindo a conjuntura política, porque dá tanto trabalho tentar perceber isso hoje, e por isso, a tendência para cairmos num autogoverno seria a saída mais fácil. 

 

Voltei a ouvir falar deste livro no dia em que Trump é eleito presidente duma das maiores potências da mundo porque, sem ter qualquer tipo de experiência política, conseguiu convencer mentes (pouco) pensantes a votar em si usando um slogan tão básico como tudo o que a sua pessoa representa. Tudo isto é o objeto de medo de Huxley quando escreve "Admirável Mundo Novo": humanos desumanizados que, tal como máquinas, estão programados para ouvir determinadas palavras-chave que os fazem agir todos na mesma direção, sem questionar, sem pensar.... estilo Pokemon Go.

 

Este livro assustou-me porque, neste texto, falei contra mim. Estou aqui a escrever num computador, em vez de escrever numa folha de papel. Eu fiquei aborrecida porque o meu telemóvel não era compatível com o Pokemon Go. Ontem terminei "Admirável Mundo Novo" e fiquei contente de não ter jogado esse jogo. Fiquei contente porque voltei a ler e porque ainda consigo pensar, criticar, refletir pela minha própria cabeça. 

 

Ou será isto tudo só impressão minha, e estou só a ter a ilusão de que estou, efetivamente, a pensar por mim? Espero que não. Ainda conto ter filhos que sejam únicos em si mesmos, que me perguntem como, quando eu tinha 20 anos, a minha geração deixou aquele tresloucado que lhes aparece nos livros de história ser presidente. Quando, meia atrapalhada, eu lhes responda "Boa pergunta", espero que isso lhes faça imensa confusão, porque entrentanto o mundo acordou e a realidade deles está tão distante de Huxley como o meu quotidiano está dum Holocausto.

 

em 5

 

 

Bons livros, e algumas teorias da conspiração, são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

 

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