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(Sinónimo de) Carmezim

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25
Mar17

Guardado na estante #3 | A Metamorfose

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 Se forem pessoas atentas e que continuam a ter esperança em mim e neste meu cantinho, devem ter reparado no livro que comecei a ler dois minutos depois - literalmente - de ter terminado "Admirável Mundo Novo" do Huxley. A ideia de partilhar com vocês, logo à partida, qual o livro que estou atualmente a ler, surgiu de forma muito natural: sabia que queria voltar a ler muito, e a ler bons autores. Sabia também que iria certammente cruzar-me com muita gente por aqui que partilhasse do gosto pelos livros e pela leitura. Por essa razão, o surgimento desta """""rúbrica"""" foi algo lógico para mim. Claro, também reparei que isto é um hábito das pessoas que falam dos livros que leram, e comecei a notar que era uma das coisas em que automaticamente reparo quando visito um blog novo: há algum cantinho no blog onde mencionem que livro estão a ler ou nem por isso? 

 

Mas enfim, vamos ao que interessa. 

 

 

Há cerca de uma semana terminei "A Metamorfose" de Franz Kafka. Na minha mais recente encomenda da Wook decidi encomendar este, "O Processo" do mesmo autor, "O Deus das Moscas" de Golding - podem já vê-lo ali ao lado - e "Fala-me de um Dia Perfeito" de Jennifer Niven - recomendado pela Cláudia Oliveira num dos seus posts. 

Dos quatro, decidi começar por Kafka - e mais especificamente por "A Metamorfóse" - porque é um livro muito pequeno (o que iria permitir "despachá-lo" rápido caso não gostasse da escrita) e porque era simplesmente uma vergonha terminar um curso de Letras - onde tantos são os professores que quase choram de admiração quando se fala em Kafka - sem nunca ter lido nada do senhor. 

 

Houve uma coisa que me chamou especialmente a atenção neste livro, algo que nunca me acontecera antes: a frase de abertura. Nunca, mas nunca, me tinha acontecido, por diversas vezes, chegar ao pé de alguém e dizer: "Lê só esta frase!" Fi-lo imensas vezes, talvez até a todas as pessoas que reparavam no livro e que lhe pegavam ou me perguntavam se estava a gostar. Vou-vos poupar o trabalho de ir ao Google: 

 

"Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, matamorfoseado num monstruoso insecto."

 

Espera aí.... O QUÊ?!?! Como assim?? 

Em situação normal, teria ido às páginas anteriores ver o que tinha levado àquele acontecimento - devia estar desatenta, com certeza. Ups, espera.... não há páginas anteriores. É assim que isto começa. 

 

Como podem supôr, é uma história, no mínimo, peculiar. Se então tentarmos ter sempre presente que este foi um livro escrito em meados de 1915... bem, ainda se torna mais marcante. É quando se lê um livro destes que se pensa que não se pode fazer nada melhor que isto. Como assim, em 1915, este homem se lembrou de fazer uma pesada crítica à sociedade - crítica essa, tão atual, mais de 100 anos depois - utilizando um homem metamorfoseado num inseto? É - e aqui todos os que me conhecem vão conseguir ouvir a minha voz a dizer isto - GENIAL! 

 

Normalmente, quando escrevo o Guardado na Estante, também não gosto de dar gratuitamente grandes pormenores sobre as histórias mas acho que este, sendo um livro especial, merece que também a minha forma de o abordar, seja diferente. 

 

Gregor Samsa é um filho que vive com os pais e a irmã mais nova, e cuja sua única ocupação é o trabalho. Esse trabalho é a sua vida - e é também o que garante que a sua família sobreviva. Paga as dívidas dos pais, evita que a irmã tenha que trabalhar e que seja capaz de se tornar numa grande profissional na área da música... enquanto Gregor, em momento algum, fala de alguma paixão que tenha na vida. Trabalho, trabalho, trabalho, sem nunca ter faltado um dia na sua vida. 

Vendo-se nesta condição, o seu primeiro pensamento é o de que não vai poder trabalhar. Esta é a primeira cena descrita no livro, capaz de fazer o leitor soltar uma gargalhada ou duas. 

 

A crítica central que este livro nos trás é o facto de, com o tempo, Gregor começar a ser esquecido pela sua própria família quando este deixa de poder, não contribuir, mas sim sustentá-los. Kafka transforma a peça fundamental daquela família num ser insignificante aos olhos da raça humana, quase como um teste para ver se esse valor fundamental se manteria. A família falhou redondamente nesse teste. 

 

O que achei mas interessante neste livro é o facto de, ao longo de todas as páginas, apesar da crítica, a escrita de Kafka faz com que haja sempre uma ponta de esperança no leitor - esperança de que a família se voltasse a lembrar do que Gregor um dia fora para eles, e o ajudassem no momento em que ele precisou. Não acontece. 

 

Mais de 100 anos depois do ano em que foi escrito, "A Metamorfose" continua a ser um livro muito atual porque é também uma crítica ao mundo moderno e capitalista: não produzes? Não trabalhas? Não és ninguém, não podes ser ninguém. No entanto, desaconselho fortemente a leitura deste livro logo após "Admirável Mundo Novo". Podem entrar num loop de discussões com vocês próprios sobre a condição do homem e no futuro que se avizinha. 

 

4 em 5

 

 

Bons livros são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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