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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

13
Mai17

Guardado na estante #6 | O Processo

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 Alguém que me mande dois gritos. Preguem-me uma chapada bem dada. Insultem-me até. Uma desgraça, foi o que isto foi! 

Terminei o mês de março toda contentinha comigo mesma porque tinha conseguido ler cinco livros, coisa que nunca me lembro de ter feito. Li livros fantásticos e finalmente tinha percebido que quando se quer mesmo arranjar um tempo para ler uma boa história, esse tempo faz-se. Em março, eu tinha-me sentido uma ilusionista que de alguma forma tinha parecido sacar mais umas horas da cartola. Foi com muito entusiasmo que comecei o mês de abril, pronta para me aventurar na segunda obra de Kafka: O Processo.

 

Nunca tinha lido nada do autor, até ter experimentado A Metamorfose, que adorei. Se leram a minha crítica sabem que esse foi um dos livros mais curiosos que já li. Com pouco mais de cem páginas, foi uma leitura daquelas que possivelmente vou aconselhar a qualquer pessoa que me pergunte o que achei. Por isso, achei que estava pronta para ler um livro como O Processo. Na minha crítica à obra A Metamorfose, alguém comentou que este (O Processo) iria ser um desafio. Bem amigos, e que desafio!

 

 

Os mais atentos devem ter reparado que esses cinco livros que li em março em nada tiveram a ver com os livros que li - ou não li - durante o mês de abril e metade do de maio. Não reparam que ali o meu cantinho do "Na mesa de cabeceira" nunca mudou? Acharam que tinha sido por lapso? Não meus caros. Acontece que ler "O Processo" é exatamente isso: um processo.

 

Nesta obra de Kafka ficamos a conhecer Josef K. que certa manhã vê o seu quarto ser invadido por agentes de autoridade que o informam que era "suspeito" e que por isso iria começar ali o seu "processo em tribunal". A partir daqui seguiram-se várias visitas ao tribunal, interrogatórios, encontros com advogados e outros acusados. Parecendo sempre ter algo de curioso nas suas obras, Kafka nunca revela - ao longo de 267 páginas - a razão pela qual Josef K. está a ser acusado. A própria personagem parece nunca se aperceber do que realmente se passa. 

 

A história é uma forte crítica ao sistema judicial e põe muito em causa os conceitos de justiça e justeza. Desde os tribunais, aos advogados apresentados, passando pelos próprios agentes de autoriadade, todos parecem ser retrados de forma a colocar em evidência o seu lado mais corrompido. 

 

Kafka parece tentar manter uma visão humanista das coisas, mesmo que o contexto e o cenário em que assenta a história de "O Processo" tentem colocar o homem e os seus direitos individuais em segundo plano. Só o facto de se tratar uma acusação sem precedentes e sem nunca ser justificada sequer ao próprio arguido mostra como esse direitos individuais - que não são só morais como também judiciais - são violados ao longo de todo o livro.

 

Depois de uma breve pesquisa fiquei a saber que o autor tem raízes judaícas, no entanto não pude deixar de sentir a presença de tantos conceitos que, numa primeira instância, associo à igreja católica como o sacrifício ou a esperança. À medida que a história vai avançando, começamos a notar o cansaço do protagonista perante a impotência para tratar do seu processo que não andava, tantos eram os obstáculos absurdos que iam aparecendo. Este cansaço dá lugar a uma culpa igualmente absurda porque nem nós nem a personagem sabe por que a sente. Se há coisa bem conseguida neste livro é a empatia que o leitor sente com Josef K. É uma canseira, não haja dúvida. 

 

Em termos linguistico, este foi certamente um dos livros mais completos, mais complexos e mais densos que já li. Estou a falar de frases com quatro e cinco linhas seguidas e isso pode levar a que tenha que haver uma preparação psicológica cada vez que se abre o livro. As descrições são por isso um dos pontos mais controversos do livro: se por um lado são incrivelmente bem conseguidas e detalhadas, por outro, levaram-me em várias viagens pelo dicionário para as decifrar da melhor forma. 

 

É um livro muito bom, bem sei. Neste contexto só posso ser humilde o suficiente para dizer que não estava pronta para o ler. Terminei o livro com a sensação que me tinha passado ao lado muita coisa importante de forma a compreender totalmente a sua mensagem. Não gostei de ter esta sensação, porque mesmo demorando mês e meio a conseguir termina-lo - entre dicionários e alguma pesquisa na internet porque não percebo nada de termos do foro jurídico - sinto que não percebi tudo. 

 

Uma coisa que tenho a certeza: daqui a um aninho ou dois volto-vos a escrever sobre este livro. Hei-de lá voltar, um dia, quando tiver a estaleca que um livro destes merece. Nesse dia classifico-o. Hoje era injusto.

 

Bons Livros são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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