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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

08
Ago17

Museu do macabro

Acho que num dos primeiros posts que escrevi aqui no blog contei-vos uma história que se continua a repetir sempre que o tema vem à baila: a minha área, a da cultura. Quando alguém diz aos meus pais que tem os filhos em medicina, em veterinária ou em mecânica, a conversa fica por aí porque toda a gente tem mais ou menos a noção - ou acham que têm - do que se faz depois de terminar um curso nessas áreas. Quando depois perguntam pelo que ando eu a fazer da vida e eu responde, já meia a medo, que terminei o curso de Ciências da Cultura, é como se aparecesse um ponto de interrogação gigante na cara das pessoas.

 

Seguem-se as perguntas da praxe: em que faculdade é que se dá isso, o que é isso, para que serve e para onde vou eu arranjar emprego. Até à bem pouco tempo o meu próprio irmão ainda achava que eu tinha ido para História de Arte. É confuso, eu sei. Eu lá tento responder às perguntas da maneira mais direta possível, sem dar grandes pormenores: "é para ir para os museus!" Assim toda a gente fica com uma vaga ideia, se bem que nunca se sabe bem o que se faz nesses sítios quando não há um grupo de turistas ou de crianças por perto. Quando digo que quero ir "trabalhar para museus", a reação é sempre a mesma. Abrem muito os olhos como quem teve uma epifania, acenam com a cabeça porque já sabem perfeitamente do que eu estou a falar e dizem "ahhh, isso é bom, ficas lá sossegadinha, sem stresses, sem nada!" É mais ou menos isso, amigos.

 

A minha área - ou pelo menos, o que gosto mais de fazer, dentro da mesma - nem passa tanto pelo museu propriamente dito, mas sim pelo que se pode chamar os bastidores de um museu. Gosto especialmente da parte de tratar das peças, conhecê-las, pesquisar sobre a sua história para proceder à sua inventariação e mais umas quantas coisas que não interessam nada para a história que eu quero contar agora. No entanto, e apesar de passar grande parte dos meus dias nesses ditos bastidores, há dias em que se tem que ir para o palco - entenda-se palco como o museu propriamente dito, só para não haver confusões.

 

Hoje foi um desses dias porque o museu a que estou associada vai fechar para obras de forma a alterar por completo a sua exposição permanente. Para fazer este trabalho chamaram as meninas dos bastidores, que têm que fazer o levantamento de toda a peça e mais alguma que lá está agora, para ter a certeza de que nada se perde. Tarefa calma, certo? Imagem andar calmamente pelo museu, a anotar o nome e número identificativo de cada peça, a meia luz, com o museu em silêncio absoluto. Uma ótima forma de começar a semana.

 

Ora, uma coisa que os museus de hoje continuam a ter sem necessidade nenuma são vitrines. Já andam a pôr todos os corredores a meia luz, ou até menos que meia que aquilo às vezes umas pessoa tem que se pôr em cima da legenda para conseguir ler como deve ser, e por isso já não são precisos hoje em dia vidros até ao teto com a desculpa de "proteger as peças". Felizmente - tirando um ou outro turista que vai ao Museu de Arte Antiga e dá aquela achega a uma estátua - as pessoas já não vão feitas ceguetas para cima das peças, tocar nelas para ver se toca algum alarme. Se não houve vidros até ao teto, até o trabalho que estive a fazer hoje ficava mais fácil.

 

Mas não. Há vidros do tamanho do mundo por todo o lado, em cada cantos. Para isso, hoje teve que andar um pobre de um senhor - ou três, para ser mais precisa - à minha frente, que tirava vidro a vidro de forma a que eu conseguisse chegar às peças para melhor as identificar. Tudo calmo até aqui, apesar da logística bem chata. A calma parece que evaporou quando, de repente, se houve um estrondo tal que parecia que tinha desmoronado um bocado do edifício. Ou uma bomba até. Foi um susto do caraças, mas tão rápido como se ouviu, o museu voltou ao seu silêncio habitual.

 

Fui a correr ver o que se tinha passado e digo-vos uma coisa: se há um filme cómico chamado "À Noite no Museu" então hoje devem ter começado as gravações para um filme de terror chamado "De Dia no Museu". Esses tais vidros com quase dois metros de altura e uns bons centímetros de espessura despedaçaram-se - com toda a carga dramática da palavra - em cima de dois dos três senhores que estavam a ajudar. Primeiro olhem para o chão coberto de vidros e suspirei com horror ao ver as peças com outros tantos vidros em cima.

 

Depois é que olhei para o chão: gotas e mais gotas de sangue. Levantei a cabeça e olhei para os senhores: pareciam saídos de uma cena do SAW. Cheios de sangue a sair de mais e mais cortes, sobretudo nos braços. Estava chocada. Passado um bocado, obviamente que tivemos que chamar uma ambulância. Passaram-se cerca de seis horas desde este acidente e ainda estão na sala de espera. Só espero que o senhor que ficou pior não tenha caído para o lado. Eu quase que o fiz quando lhe vi os braços.

 

Portanto, não. Não escolhi "trabalhar em museus" para estar sossegadinha, sem stress. Às vezes podem haver momentos em que parece mesmo que podia jurar estar rodeada de efeitos especiais.

 

Não gostar de sangue é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

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