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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

08
Set17

Podia ser uma carta à MTV

Nasci em 1995 e há vídeos meus nos quais estou a dançar ainda antes de saber sequer andar. Há outro vídeo - um dos meus preferidos - em que, sem saber falar, começo a responder ao meu pássaro que cantava dentro da sua gaiola. Com a boca cheia de papa eu respondia-lhe - quase - no mesmo tom, tentando ao máximo imitá-lo. Há ainda outros vídeos em que, um pouquinho mais velha, eu apareço sentada em frente à aparelhagem de headphones nos ouvidos a ouvir Silence 4. 

 

Desde pequena que a música me rodeou. Tinha três dias quando fui com os meus pais para a minha primeira atuação no rancho cá da terra; tenho um irmão onze anos mais velho, que viveu a sua adolescência nos meus primeiros anos de vida portanto tudo o que era Backstreet Boys, No Doubt e outros grandes êxitos, eu ouvia e decorava - mais que não fosse para me sentir mais crescida como ele; aos fins de semana, o meu pai gostava de pôr cassetes e mais tarde DVDs de concertos - Blue, Tina Turner, Michael Jackson, e os meus preferidos, os Live8. 

 

Por esta razão, desde pequena que gosto de acompanhar atentamente o mundo da música. Fui aquela miúda que dormiu à porta do então Pavilhão Atlântico, fui a miúda que apanhou todas as palhetas, todas as setlists, todas as baquetas e outras lembranças que os meus artistas preferidos mandavam para o público. Fui, e continuo a ser aquela miúda que acaba todos os concertos a dizer que "ele olhou para mim!", "ele acenou-me" ou então "não, este é que foi o melhor concerto da minha vida!". 

 

Outra das tradições que eram para mim sagradas era assitir às cerimónias de prémios MTV. Talvez até 2010 não perdia uma e via todas em direto - já aí detestava levar spoilers dos vencedores. Mesmo que em direto não tivessem legendas e eu não estivesse a perceber metade do que eles diziam, eu via na mesma. Festejava tipo golo do Benfica no jogo do título quando os meus preferidos ganhavam. Cheguei a emocionar-me com discursos e ficava maravilhada com as atuações. 

 

Com o passar dos anos isso foi deixando de ser uma tradição até porque a própria MTV deixou de ser aquilo que era "no meu tempo". Na altura, pesquisava na internet por atuações e discursos das cerimónias do início dos anos 90, antes de eu ser nascida, e lembro-me de pensar que aquilo naquela altura ainda era mais incrível. Os artistas eram emblemáticos - alguns já falecidos e de quem eu só ouvira falar -, apresentadores com piada de verdade e discursos de fazer arrepiar. 

 

Hoje, olhando para trás e para alguns momentos da última cerimónia dos Video Music Awards deste ano, sinto um misto de emoções. É agridoce porque se por um lado percebo que, mesmo assim, ainda vivi durante uma altura em que as cerimónias eram momentos de entretenimento puro, os meus filhos já não terão a mesma sorte. Fico com pena porque, apesar de simples, as horas que passei a vibrar com estes espetáculos são memórias que guardo com muito carinho. É triste que agora essas cerimónias sejam, na sua grande parte, isso mesmo: tristes. 

 

Ouvi que a Taylor Swift estreou o seu novo videoclip e que tinha sido um escândalo porque fazia referências ao ex-namorado, ao Kanye West, ao roubo da Kim Kardashian, à Katy Perry e mais umas quantas coisas. Supostamente, um "vai-te lixar" gigante para aquilo que pareceu ser metade das pessoas que estavam na sala a assistir ao espetáculo. Daí seguiram-se as notícias da (não) reação do ex-namorado enquanto via o videoclip durante o espetáculo, o facto da Katy Perry ter supostamente recusado anunciar o videoclip e mais umas quantas coisas que, tudo esprimido, não dá sumo nenhum. 

 

Não me entendam mal: eu adoro um bom escândalo. Sigo uma data de famosos nas redes sociais e por isso, ponho-me um bocado a jeito para que estas notícias venham ter comigo. Quando eu via estas cerimónias de prémios religiosamente também havia os seus escândalos, no entanto, no dia seguinte falava-se sobretudo dos vestidos, dos vencedores, das atuações e dos discursos. Podia haver momentos mais mesquinhos, mas o programa era para a música, e nos dias seguintes era disso que se falava. "Mas estão a falar da música, estão a falar do videoclip da Taylor Swift, certo?" Errado. Não estão a falar a coreografia, nem da música, nem da evolução enquanto artista. Estão sim a esmiuçar o videoclip até se tornar ridículo para arranjarem mais uma "referência" a mais algum acontecimento mediático ou personalidade. O pior é que todos os envolvidos, MTV incluída, estão a ganhar com este circo porque, infelizmente, hoje em dia essas coisas vendem mais do que a música. 

 

Perante estas notícias fiquei convencida - ou tive a esperança - de que não se falasse de mais nada porque, de resto, mais nada se tinha aproveitado. Bastaram-me meia dúzia de cliques para perceber que estava errada: houve momentos durante a cerimónia que tiveram tanto de arrepiantes como de importantes em momentos como os que vivemos hoje:

 

 

 Em cima vemos uma artista que ouço desde os tempos em que o meu irmão era adolescente e ouvia "Get This Party Started" a receber o prémio mais prestigiado da cerimónia. Aqui, P!nk quis aproveitar aqueles poucos minutos que tinha para nos chamar a atenção para algo muito importante: o facto de vivermos numa sociedade que, erradamente, faz com que uma menina de seis anos se sinta não só feia como também acha errado que se pareça com um rapaz. 

 

Em baixo, uma atuação que me traz lágrimas aos olhos sempre a vejo. Esta atuação - já para não falar do discurso incrível que ele faz no final - mostra um rapper que escreveu um álbum inteiro sobre todos os problemas sociais que existem nos dias de hoje. Esta é a minha música preferida, que fala sobretudo de saúde mental e suicídio. A música nem sequer tem um título própriamente dito. O nome da música é aquele número que, curiosamente, corresponde ao número de telefone da linha de prevenção ao suicídio nos Estados Unidos. O artista deu-lhe este nome para que, em momentos de desespero, ouvissem aquela música e soubessem logo como ter ajuda. À volta do palco, as pessoas que estão vestidas de branco são pessoas que sofrem dos mais variados problemas mentais ou então, familiares que perderam alguém para o suicídio. Uns sorriem, provavelmente porque sobreviveram e melhoram todos os dias; outros choram, ao lembrar-se de alguém de quem têm muitas saudades. 

 

Passaram agora talvez duas semanas desde esta cerimónia de prémios MTV e foram muito poucas as pessoas que vi a falar disto. Estes dois momentos são exatamente daqueles que, com os meus 10 anos, me deixavam completamente vidrada na televisão. Adorava arrepiar-me com estas coisas, adorava chamar os meus pais para verem o que estava a dar, só para ter a certeza que não era a única a achar aquilo um momento lindíssimo. 

 

Se não gostarem da P!nk, metam os fones e ouçam-na só a falar - ou então façam o esforço só para verem a filha dela, que também vale a pena. Se não gostarem de hip hop e rap, pesquisem no google esta música e leiam a letra como se estivessem a ler um poema. Façam isso com todo o álbum dele. Não é nenhum escândalo mediático, mas prometo que não se vão arrepender de qualquer maneira. 

 

Sentir-se inspirada é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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