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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

16
Out17

Rodeados por chamas

O meu fim de semana estava a ser maravilhoso. A semana tinha sido complicada em termos de horários, os trabalhos começam a ser mais e os prazos começam a apertar - tanto para mim, como para o meu Rapaz. Por essa razão, foi com expectativa que esperei a chegada do fim de semana. Estava prometido que íamos passear, jantar fora, estar com a família e namorar tudo o que não namorámos durante a semana. Pensei tudo, menos que o nosso fim de semana, que tanto desejámos que chegasse, terminasse da maneira que terminou. 

 

Ontem, pelas 18h começámos a ver um pequeno núcleo de fumo que nos parecia estar perigosamente perto. Seguimos o fumo que parecia cada vez mais negro e deparámo-nos com um foco de incêndio concentrado num terreno. Os seus donos, dois idosos, tentavam atrapalhados salvar os seus cães e o seu rebanho de ovelhas. Ainda não tinham chamado os bombeiros e por isso essa foi a nossa primeira tarefa. As pessoas começaram a chegar, alarmadas pelo fumo que se via da estrada e com elas chegaram os primeiros bombeiros. Parecia que tudo se ia controlar - mas só parecia. 

 

O que vimos ontem foi absolutamente impressionante. Houve momentos em que a população que ali se concentrou, apesar do pâncio, ficava estática a olhar o que se ia passando à volta. Em momentos como aquele, a noção de tempo parece ficar tão distorcida como a nossa visão, tal era o fumo. Mas uma coisa posso garantir: em dez minutos, esse foco de incêndio que estava inicialmente num só terreno alastou-se durante metros e mais metros, por árvores grandes e pequenas, aproximando-se de animais e casas. 

 

Dez minutos - não mais que isso. Esse foi o momento em que nos apercebemos que afinal aquilo iria ser mais complicado do que anticipámos. Vi a pessoa que mais amo tirar a camisola, enrola-la à volta da cara e a correr em direção às chamas para ajudar bombeiros e as pessoas que viam agora os seus bens em risco. O meu coração estava do tamanho de uma ervilha, e a minha casa estava a alguns quilómetros de distância daquilo tudo, segura. 

 

Vi uma das famílias que tinha as chamas a rodear-lhe a casa e os animais chegar. Iam tendo um acidente à sua chegada, tal era a velocidade a que vinham depois de terem sido avisados do que se estava ali a passar. O homem correu para os seus animais. A mulher chorava desesperadamente, gritava e erguia as mãos ao ceú. As filhas correram para os cães para os meterem prontamente dentro do carro, colocando-os a salvo se o pior fosse acontecer. Arrepio-me só de escrever estas palavras. 

 

Para tentar salvar barracões de apoio à agricultura, bombeiros e populares - o meu Rapaz incluído - foram de novo em direção às chamas. Desta vez, EM SEGUNDOS, tiveram que correr e fugir porque o vento soprava de tal maneira que há minima distração tinham lá ficado. Nós, de fora, gritámos pelos que lá tinhamos, à medida que viamos as chamas aproximarem-se da estrada e crescerem aos metros de cada vez. 

 

Chegou uma altura em que tivemos que deixar arder. As casas estavam salvas, mas o vento e as chamas eram de tal forma ameaçadoras que era simplesmente inútil tentar domá-las. Foi neste momento que olhei para trás e dali consegui ver mais três focos de incêndio em outras localidades do nosso concelho - parecia algo tirado de um filme apocalíptico. Para onde quer que olhássemos havia um carro de bombeiros e no ar só ouvíamos gritos, madeira a estalar e sirenes. 

 

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Vim para casa, a pedido do meu Rapaz e foi a pior coisa que fiz. Passado umas horas de estar em casa avisou-me que ia voltar para o incêndio porque parecia estar a complicar-se. Soube entretanto que a casa de uma amiga estava em perigo. Tudo isto, todos eles lá, e eu fiquei a ver na televisão. "Vila Franca do Rosário está rodeada de chamas" era o que se ouvia nas emissões especiais dos canais informativos. Mandava mensagens ao meu Rapaz e aos meus amigos a pedir-lhes que assim que pudessem me dissessem como estavam. Pedia-lhes cuidado. 

 

Ver na televisão as emissões de ontem à noite era verdadeiramente perturbante. Já sem falar da preocupação de termos pessoas de quem gostamos tão perto das chamas, a televisão mostrava situações idênticas àquela que se passava perto da casa do meu Rapaz e dos meus amigos, um pouco por todo o país. Tudo ardia, pessoas morriam e o desespero foi o sentimento que reinou um pouco por todo o país. 

 

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Nunca mais me vou esquecer da noite de ontem. Só no nosso concelho, o concelho de Mafra, houve três enormes incêndios que rodeavam pessoas tão importantes para mim. Eu tive sorte, muita sorte. O vento impediu que as chamas viessem para o lado da minha casa. Nem senti cheiro a queimado, não vi uma fagulha das minhas janelas. Tive sorte, mas senti-me tão rodeada por chamas como se lá estivesse.

 

Quando soube que estavam todos bem e que o fogo estava finalmente apagado - por volta das 4h da manhã - fui eu que deitei as mãos ao céu e agradeci por estarem todos bem, por ninguém ter perdido nada. Graças à coragem dos populares e à coragem e trabalho incansável dos Bombeiros, tudo acabou bem. Obrigada obrigada obrigada a todos os que ajudaram, a todas as corporações de bombeiros que vieram até aos vários incêndios em Mafra e obrigada também às televisões que, para quem não podia lá estar, foram a única maneira de receber informação atualizada sobre o que se passava. 

 

IMG_3030[1].JPG

 

Todas as fotografias neste post foram tiradas por mim, ainda antes do fogo rodear toda a vila. Isto foi só o início e já era tão assustador.

 

Incêndios não são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta. 

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