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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

16
Mai17

Um convite à minha balança

Eu tenho um dom maravilhoso que quem gosta dessas coisas diz estar associado ao meu signo: cismar nas coisas. Pensar demasiado, mas aquele demasiado mesmo a sério ao ponto de estar sempre a reparar em certas e determinadas coisas por algo que eu tenha ouvido. Em dias mesmo maus pode até chegar ao extremo de eu achar que ouvi, de achar que vi, de achar que senti. Juro que não sou louca, a sério, não percam a esperança em mim! Prometo que me vou tentar explicar o melhor possível. 

 

Isto é uma coisa em que trabalho há já alguns anos e acreditem que está mesmo muito melhor. Não sou assim em relação aos outros, não vou bater em porta alheia a contar o que ouvi, não acrescento ponto qualquer em nenhuma história. Confio nas pessoas, gosto das pessoas e por isso, no que toca aos outros tento ser a pessoa mais compreensiva que me é possível ser. A coisa muda de figura quando é para falar de mim própria e, por exemplo, sobre o meu corpo. 

 

 

Já vos falei aqui um pouco sobre a minha relação com desporto, mais propriamente com a educação física na escola, que odiava com todas as minhas forças - aquele post em que vos conto como sou a pior guarda-redes à face da terra, lembram-se? Contei-vos também que nunca tive grandes complexos com o meu corpo porque sempre fui alta e magra. No seguimento dessa história contei-vos como entrar para o ginásio foi das melhores decisões que já tomei porque vi os resultados a aparecer e nunca me senti tão bem. 

 

Comecei a sentir-me bem, em primeiro lugar, por causa do rabo. É verdade. Não que eu quisesse ter uma tranca como a Kim Kardashian, mas antes de entrar para o ginásio eu era de tal maneira fininha que parecia que o meu rabo era côncavo, que ia para dentro. Nada contra, eu é que olhava para o espelho e não gostava de me ver assim. Na praia não dava para usar um biquini mais arrojado porque não assentava bem e por isso era obrigada a usar aquela cueca da avó clássica. Ah, e vocês estão agora a pensar que eu provavelmente comia pouco. Pelo menos era o que toda a gente pensava. Sim, nunca gostei muito de doces e por isso quando me viam a recusar sobremesas numa festa ou jantar vinha logo o comentário do "estas miúdas e as dietas". Ficava com aquele sorriso amarelo, como quem achou graça, e pensava "mal sabes tu que, primeiro: não gosto assim tanto de doces; e segundo, enquanto tu comeste uma febra, eu comi o bicho inteiro." A minha mãe até diz que em clima de festa, eu exagero. É possível, mas quando como boa comida é-me mesmo difícil parar ali antes do ponto de rebolar mesa fora. Também estou a trabalhar nisso. A sério, mãe. 

 

Este sistema sempre funcionou bem para mim, sobretudo quando andava no ginásio e ia todos os dias. Sentia-me ótima e sentia-me no direito de comer o que eu quisesse. Lá está, tenho a vantagem de não gostar de doces - que acredito que neste contexto ajude - mas se houve coisa que eu sempre disse foi para não me dizerem para deixar de comer algo que eu goste. Posso moderar o consumo, posso também introduzir opções mais saudáveis - coisa que fiz - mas não me obriguem a deixar uma boa costoleta, a deixar de molhar o pão no molho da Portugália ou a deixar de comer um cachorro no Frankie. Acreditem, eu ia ser infeliz. 

 

Sei que estou a falar um bocado, como se diz - e tão apropriado neste contexto - à boca cheia. Claro que se fosse por razões de saúde, me privaria do que me fizesse mal... mas na minha realidade, que é a única que realmente conheço, eu era feliz assim. No ginásio, os resultados iam aparecendo. Na cozinha, eu saía satisfeita. A coisa começa a mudar quando o ginásio é, forçosamente, retirado da rotina. 

 

Deixei o ginásio há três meses e sinto imensa falta. Sinto-me com menos força, e claro, mais flácida. As coxas tremem um bocadinho mais e a barriga dobra um bocadinho mais quando me sento. No entanto - e devido ao meu trabalho de casa em não exagerar as coisas quando eu sou o tema de conversa - fiz um esforço e perguntei a mim mesma "sentes-te bem?" Visto um biquini ou um fato de bato e sinto-me bonita e por isso, a resposta foi sim - sem qualquer dúvida, até porque sabia que dentro de alguns meses, depois do estágio, voltaria à carga. Até que começam os comentários. 

 

"Ah, estás fortezinha!""Olha para isto, com cada perna!""Olha para esta cara, está redondinha!"

Das primeiras vezes ainda me ri e não me abalou nem um pouco. O rabo que não havia há dois anos, hoje mora cá, devia ser a isso que se referiam. Até me ria e tal... dar um ar despreocupado, até porque era essa a verdade. Eu sinto-me bem. Depois, os comentários começaram a ser acompanhados até de gestos, especialmente daquele em que se metem os braços ao longo do corpo e, afastando-os do mesmo, parece que se tem ali algo a amortecer. Aquele gesto que acompanhado do comentário, intensifica mais a coisa. Dou um ar despreocupado, até porque era essa a verdade. Eu sinto-me bem... e nenhum comentário é por mal. Estão a dizer que tenho um ar saudável... certo? É que quando se houve uma, duas, três começo a pensar se não estarei eu a ver coisas - ou a não ver, neste caso, gordura.

 

O que acontece, depois de tanto esforço por trabalhar nesta minha tendência, é que dou por mim a relembrar-me que é normal. Algumas pessoas não te vêem há algum tempo. Cresci. Até o meu visual está diferente, também pode ser isso que torna a minha cara mais redonda. Sim, posso ter é menos massa muscular, mas não estou mais gorda. Não estou gorda sequer.

Percebi que algo estava mal quando começo a repetir estas frases várias vezes na minha cabeça. Vezes demais para o meu gosto. Eu não deveria ter que me relembrar disto porque isso só quer dizer que estes comentários me estão a fazer duvidar do quão bem eu me sinto e isso devia ser crime porque eu demorei tempos e tempos a sentir-me como me sinto hoje. 80% do tempo sorrio e aceno.... mas a verdade é que há mais 20%. Nessa fração de tempo insignificante, eu se calhar acho que quando me sento fico com pneus a querer ladear as calças. Se calhar, nessa fração de tempo insignificante, sinto a minha barriga a tremer com as pedras da calçada quando ando de autocarro. 

Hoje, depois de ouvir mais um comentário, agarrei na minha mãe até à casa de banho. Pus-me em cima da balança e obriguei-a a ver o peso que marcava: exatamente o mesmo que no início do ano. Mostrei-lhe para ter a certeza que não sou eu que estou maluca. Eu sei que não tenho necessidade de provar a mais ninguém que não estou mais gorda, mas naquele momento, acho que foi mais para dizer a mim própria "estás a ver bem ou não? Agora deixa de ser parva!" Refletindo sobre o assunto parece que, se é tudo uma questão psicológica para mim, ainda é mais para os outros: quando me viam no ginásio, ninguém dizia nada. Agora que não ando, já inchei de um dia para o outro. Oh santa paciência. Agradeço a preocupação mas não se preocupem que não estou em idade de me desleixar, muito obrigada.

Apesar de tudo, não vejo a hora de voltar ao ginásio, para ver se perco de vez o tempo e a energia que gasto nestes 20% do tempo. O que eu tenho que fazer é começar a responder o que o meu Rapaz responde, das poucas vezes que ouviu um comentário destes ser-me dirigido: sacos de osso, há no cemitério. Gorda ou magra, eu sinto-me bem. Gorda ou magra, sinto falta do ginásio. A minha meta é perceber que não o tenho de provar a ninguém. Foi só um desabafo. 

 

Ter saudades do ginásio é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta. 

 

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