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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

18
Out17

E depois do terror

Espero que este seja o último post que escrevo sobre este tema. Até estava indecisa sobre se deveria sequer escrever mais uma vez sobre o que se tem passado no nosso país desde o fim de semana passado. Acendemos a televisão e somos bombardeados com imagens verdadeiramente arrepiantes de chamas a consumir casas e bens, ouvimos testemunhos de partir o coração daqueles que perderam uma vida inteira em meros segundos e assistimos a discussões políticas em direto que pouco parecem adiantar. Ligamos as redes sociais e os testemunhos continuam. 

 

Não tiro legitimidade a nada disto. Eu também senti necessidade de partilhar a minha história, a minha experiência que foi tão pequena ao pé de algumas que tenho lido por essa internet fora. O que estou a querer dizer é que achei que se calhar não é preciso que mais uma pessoa fale disto, outra vez. 98% dos meus posts neste blog são de coisas que gosto, de momentos felizes ou situações caricatas porque é isso que, acima de tudo, gosto de partilhar e me dá gosto escrever. Não queria estar a massacrar mais ninguém com outro post tão triste. No entanto, decidi fazê-lo na mesma porque a vida, infelizmente, também é isto. Hoje falo-vos do "pós terror". 

 

Ontem estive finalmente com o meu Rapaz desde que o deixei no domingo, à porta de casa dele, com o ar coberto de fumo e fagulhas. Essa viagem para casa foi a primeira vez que conduzi com a música desligada. Mal me lembro da viagem porque estava dividida em "só quero chegar a casa" e "nunca o devia ter deixado". Depois de muita preocupação, ontem dei-lhe o abraço que estava guardado desde as 4 horas da manhã de domingo, quando ele me ligou a dizer que estava tudo mais calmo e que já estava em casa. Estavam todos bem. 

 

Depois de um lanche tão bom, chegava o momento que ambos estavamos a querer adiar. "Vamos dar uma volta, ver como ficaram os campos." E seguimos viagem. Não foi preciso irmos muito longe. Do ponto alto de Vila Franco do Rosário conseguiamos uma parte da destruição causada pelas chamas. Uma coisa vos digo: ver labaredas com dez vezes o nosso tamanho é das coisas mais assustadoras que já presenciei na minha vida. Mas ver o que fica depois, depois de tudo apagado, é impressionante. É dos cenários mais tristes que me lembro de ver. 

Ainda dentro do carro houve logo algo que me fez perceber que ia ter que me preparar psicologicamente para o que ia ver assim que saísse para a rua: o cheiro. O cheiro era absolutamente insuportável. Era tóxico. Entrava-nos nas narinas e deixava-nos mal dispostos. Talvez tivesse sido tudo psicológico, mas aquele cheiro também será algo que não me há-de sair da memória. 

 

Quando saímos do carro, esta foi a paisagem que nos recebeu, num silêncio profundo. 

 

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 Durante cerca de dez minutos ficamos os dois ali, parados a contemplar a paisagem que um dia nos tinha feitos respirar fundo para sentir o ar puro do campo. Do nosso campo, da nossa terra. Hoje, se fizesse isso, provavelmente os meus pulmões iam sentir-se sufocados. Negro, tudo negro. A terra de luto pelos que perderam tudo, pelos que perderam a vida. De luto por nós, portugueses. 

 

Decidi escrever este post hoje porque acho que vermos esta realidade, vermos o que ficou, é tão importante quanto todos os testemunho de pânico e desespero do fim de semana. As fotografias e vídeos das chamas enormes que nos podiam engolir em segundos são o que ficará para sempre na nossa memória coletiva. Mas isto, esta paisagem pintada de negro é aquilo que nos vai bater à porta todos os dias como lembrete da tragédia que foi o verão de 2017. É por isto também que não sei até que ponto me apetece saltar de alegria pela demissão da ministra porque ainda me custa a acreditar que isso vá, efetivamente, evitar que tragédias destas voltem a acontecer.

 

Quando se deixar de falar dos incêndios na televisão, nas redes sociais e nos blogs e nós acharmos que essa ferida já sarou, vão haver pessoas que vão abrir a janela todos os dias e ver-se rodeadas de terra em cinzas. Vão caminhar onde outrora caminharam com gosto e vão cruzar-se com animais carbonizados como eu vi. As pessoas que vivem em Vila Franca do Rosário e em tantos outros pontos do país vão abrir as portas de casa e é isto que vão ver. 

 

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É por isso que eu acho que também é importante falar do "pós terror", para que não nos esqueçamos destas pessoas e do que é preciso fazer para que esta paisagem volte a ser, nem que seja, um terço do que um dia foi. 

Todas as fotografias neste post foram tiradas por mim e mostram o estado atual dos terrenos que rodeiam Vil Franca do Rosário, Mafra. 

 

 Incêndios não são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta. 

Sinonimo de Carmezim

Por detrás deste blog está a Marta. Com 23 anos, saloia de gema, criou este cantinho onde vão poder encontrar tudo o que é sinónimo da sua pessoa.

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