E se eu vos disser que fui à vindima?
Ora, desta é que eu aposto que vocês não estavam à espera. Se recuarmos uns quatro ou cinco anos eu responder-vos-ia "nem eu!", mas esta foi já a segunda vez que fui. Não porquê, mas em minha casa a reação à minha ida até a vindíma, sobretudo pelas minhas avós, foi uma gargalhada bem dada seguida de um olhar mais sério à espera do clássico "estava a brincar, 'vó." Desta vez, tive que responder "mas eu estou a falar a sério!" e mesmo assim elas ficam meias desconfiadas. Depois lá as lembro que já fui o ano passado e percebem que estou mesmo a falar a sério.
A vindima é uma pratica muito comum nesta altura do ano, aqui na zona em que vivo - e provalmente noutras, mas eu só conheço a realidade da zona saloia. Apesar disso, e de estar muito familiarizada com a vindima "do antigamente" por causa de coisas que fui lendo ao longo do tempo, quando me convidaram para ir ajudar na vindíma, eu não fazia a mais pequena ideia para o que ia. Sabia que há sítios em que é coisa para demorar mais que um dia, mas ali disseram-me logo que seria só aquele sábado. "Então sou capaz de aguentar!"
Bem, o ano passado foi, como diz o outro, "um abre olhos" porque na realidade eu não sabia mesmo para o que ia. Para começar estava de férias e tive a brilhante ideia de ir fazer as unhas no dia anterior. Obviamente que ainda nem era hora de almoço e já todo o verniz e mais algum estava, no mínimo, todo estalado. Dez euros que se eu tivesse usado a cabeça poderiam muito bem ter sido gastos no fim de semana seguinte. Ainda hoje não sei o que foi que me passou pela cabeça. Adiante.
Quando lá cheguei de manhã, olhei para o tamanho da vinha, depois para o grupo que ia ajudar e fiquei aliviada porque íamos dar bem conta do recado. O meu Rapaz, sempre com o seu otimismo desmedido, mandou um "ah, isto à hora de almoço está tudo despachado" e eu acreditei nele. No entanto, quando ele disse isto houve pessoas que soltaram umas gargalhadas, portanto achei que se calhar era só ele que não me queria assustar.
Depois foi o drama da tesoura. Nunca me cortei - mesmo quando já estava meia falecida -, comecei a perceber o espirito da coisa e até estava tudo a correr bem. Sim, a goma das uvas que se iam esborrachando fez com que ficasse com a tesoura um bocado colada à palma da mão, mas nada que me tivesse feito impressão. O problema foi que, ao final do dia, tinha calcado nos dedos os sítios em que tinha assente a tesoura durante todo o dia. Nunca tive dores nem me incomodou minimamente, por isso lembro-me que fiquei um bocado surpreendida quando vi que tinha dois dedos com partes côncavas.

Outra coisa que eu não sabia sobre a vindima: 98% é passado curvado. Ou de joelhos. Ou deitado. Ou a fazer o pino. Chegamos a uma altura que já nos metemos nas posições mais estranhas do mundo, só para poupar as nossas costas que já nos doem em todo o lado. Parece que quando o dia acaba já nem sabemos andar direitos. Ao final do dia já tudo me doía e portanto, o número de palavras que me saíam da boca por hora foi diminuindo ao longo do dia - e isso é uma coisa bem rara na minha pessoa. "Eu sei que não estou a falar, mas acreditem que estou a gostar", disse eu na altura.
E era verdade! Apesar de, o ano passado, eu não fazer a minima ideia do esforço - individual e de equipa - que é necessário para fazer este tipo de trabalhos, a verdade é que não só aprendi muito como também, tirando as doras, acabou por ser um dia para lá de bem passado. Obviamente que este ano tive dois dedos de testa e já fui mais preparada, acabando por aproveitar melhor o que dias como este têm de bom.
Este ano não só não fui arranjar unhas no dia antes como também fiz questão que estivessem todas bem roídas curtas para não as prendesse nalgum lado e acabasse por me magoar. Levei luvas para evitar o assassínio dos meus próprios dedos ao mesmo tempo que diminuí as probabilidades de me cortar. Levei chapéu, coisa inédita em mim, porque já não sei lidar que este calor que nunca mais desaparece. Tomando estas pequenas precauçõe, conversei, brinquei e até cantei Kendrick Lamar até à hora de vir embora. O ano passado foi bom, mas foi duro. Este ano foi duro, mas foi bom!
Que nos próximos anos bebam uma vinhaça saloia com uva apanhada por nós!
Andar na vindíma é (Sinónimo de) Carmezim.
Marta.