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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

13
Jul17

Festivaleiro da hashtag

Tal como já estão fartos de saber, faz hoje uma semana que fui ao NOS ALIVE ser feliz. Essa missão foi muito bem sucedida: fui, realmente, muito muito feliz no passado dia 6 de julho. O Alive - sobretudo o Optimus, e nem tanto o NOS - tem um lugar muito especial no meu coração, há já muito tempo. Apesar de não ter sido o primeiro festival a que fui - esse foi o clássico Rock In Rio, em 2006 - este foi o segundo, logo em 2009. Já lá vão quase dez anos e eu era uma autêntica criança. Quando me agarrei à grade depois de quase um quilómetro a correr para lá chegar - a sério, é mesmo cerca de um quilótro -, lembro-me de ter aquela sensação de vertigem quando olhei para cima e vi a dimensão daquele palco que, para uma criança, até assustava.

 

Foi ali em Algés que vi alguns dos concertos mais inesquecíveis da minha vida e que me marcaram profundamente: no topo da lista, sem dúvida nenhuma, Coldplay e Radiohead. São muitos mais aqueles que na altura me fizeram gritar e chorar que nem uma bebé e que guardo no meu coração com todo o amor, anos depois - mas esses dois, foram qualquer coisa de extraordinário. Jamais esquecerei aqueles momentos em que o público parecia ser um só a cantar The Scientist. Foi também arrepiante quando toda a gente, de olhos postos no palco - e alguns, com lágrimas - cantavam Stay With Me, de Sam Smith, com tudo o que tinham. 

 

Era também incrível chegar às 7 horas da manhã ao pé do Passeio Marítimo de Algés e ver já meia dúzia de pessoas ali, que comentavam entre si os momentos por que estavam mais entusiasmados por assistir durante os concertos. Lindo lindo, era nos anos em que comprei passe de três dias, os seguranças já saberem o meu nome e dos meus amigos, porque naquele ano, naquela primeira fila, foram sempre as mesmas caras. Os seguranças continuam a ser os mesmos, reparei na passada quinta-feira. 

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Também como partilhei com vocês, esta edição do NOS ALIVE foi a primeira a que fui enquanto pessoa normal: ir depois do trabalho, com toda a logística que isso implica, incluindo chegar ao recinto ao mesmo tempo que 70% do público. Dar dois passos para a frente de dez em dez minutos só para chegar à parte das revistas. Pedir com licença de dois em dois metros quando já dentro do recinto. Comer e fazer aquele xixizinho básico era mentira. Para sair, nem se fala. Um bocado com os nervos em franja comentei que "mil vezes esperar 10 horas à porta, ir para a primeira fila e não me aperceber nunca que esta confusão acontecia nas minhas costas". Há doze anos que vou a festivais e não fazia ideia de que aquilo era assim. 

 

Este ano a minha experiência no NOS ALIVE foi muito diferente de todas as que tive até agora. Foi como voltar a casa e não reconhecer nada. Atenção: não sou daquelas fãs de determinada banda que fica chateada quando num ano os adorou ver num palco pequeno e no ano a seguir finge que foi horrível porque já todos o conheciam. Graças a Deus é por causa disso que temos muitas bandas a voltar a Portugal. Eu gosto que as pessoas comecem a gostar e a querer ver coisas que eu sei que são boas. Aliás, eu fui uma dessas pessoas em relação a várias bandas e detesto quando se põem com fundamentalismos. Se querem uma banda só para eles, que a criem. 

 

Também não sou daquelas pessoas que anda por aí com uma nostalgia constante, quando na realidade não têm nem razão nem idade para o fazer. Sem ser em brincadeiras, nunca comecei uma frase por "no meu tempo....", mas confesso que apesar dos meus tenros 21 anos, tive vontade de começar várias frases, para várias pessoas, dessa maneira. Apesar de ter sido muito feliz na passada quinta-feira, aquilo no meu tempo não era nada assim. 

 

Apesar de me sentir em casa quando as luzes apagaram e começou a música, senti-me desconfortável nos intervalos. Foi complicado andar pelo recinto a baixar a cabeça de cinco em cinco minutos porque havia uma fotografia a ser tirada. Nada contra, se se estivessem a divertir de verdade e quisessem eternizar aquele momento, mas os sorrisos, os braços no ar, os brindes, desapareciam para ir a correr escolher o filtro que usar. 

 

As filas para a casa de banho eram intermináveis. Nada contra, se fosse para fazer o xixi, o número dois ou até bolsar se se tivesse exagerado na cerveja ou no Casal Garcia. No entanto, as filas que não tinham fim eram mais para os espelhos, em frente aos quais se sacavam pós, pestanas falsas e batons da malas. 

 

Na primeira fila, ali mesmo na grade, ali mesmo na cara do artista, havia pessoas que a certa altura deixavam de cantar e dançar. Nada contra, não têm de conhecer o alinhamento escolhido de uma ponta à outra. No entanto, deixavam de cantar e dançar para ligar os dados móveis e começar a VER - nem sequer era a fazer - instastories. Se eu saltava mais alto, se eu cantava um refrão com tudo o que tinha, olhavam para mim por cima do ombro, e pediam-me para ter cuidado. Esta foi, de todas, a que me deixou mais incrédula. Foi a que me deixou mais a pensar na quantidade de pessoas que ali estava para o estilo, para mostrar, para pôr o hashtag e usar glitters pela cara toda para se sentirem no Coachella. O pior: todas aquelas pessoas tinham, obrigatoriamente, bilhete. Se calhar alguém que conhecia toda a setlist de Black Mamba, de Depeche Mode ou de Phoenix ficou em casa porque aquelas pessoas tinham que lá ir tirar uma selfie. 

 

Senti-me estranha por estar num festival de música - ou seja, com concertos e artistas - e ser o ovni por estar a cantar, por aplaudir ou por não falar durante uma balada. Sim, também gostava de agora estar em casa e se calhar rever o vídeo de algum concerto que vi, mas não fiz instastories. Não tirei uma foto. Não gravei um vídeo. É que nem me lembrei de o fazer, nem na passada quinta feira nem nos últimos doze anos. 

 

A sério que não quero parecer uma daquelas que diz isto cheia de orgulho, que fui a "única" a fazer ou não fazer isto ou aquilo. Digo-o com muito pesar e mesmo triste por aqueles miúdos que não saltaram, nem gritaram, não puderam levantar o cartaz que fizeram em casa porque iam tapar as câmaras dos que estavam para trás. Falar sobre tudo o que vi naquele dia dava pano para mangas, mas de forma resumida, saí de lá com vontade de dar uma palmadinha nas costas e dizer a mim própria que ao menos, quando comecei nestas andanças, ninguém lutava pela melhor foto. Quanto muito, lutavasse para ver quem é que tinha mais bilhetes colados na parede do quarto, mais baquetas ou mais palhetas. 

 

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Amanhã, malta que vai ter a honra de assistir a um concerto de Red Hot Chilli Peppers - e que ficaram com um bilhete que eu esfolava para ter - experimentem pôr o telemóvel para baixo. Não gravem a Scar Tissue, aproveitem esse momento, porque vai ser lindo. Abanem cada parte do vosso corpo como se não houvesse amanhã quando eles rebentarem o MEO Arena com a Dani California. Se vier alguma que não conheçam, dancem na mesma. Experimentem não pegar no telemóvel. Mais que não seja para pouparem dados móveis. 

 

Vibrar com concertos é (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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Sinonimo de Carmezim

Sou a Marta e gosto de escrever umas coisas de vez em quando.

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