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(Sinónimo de) Carmezim

(Sinónimo de) Carmezim

23
Fev18

Guardado na Estante #12 - A Vida de uma Serva

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Eis o segundo livro de 2018. Depois deste, confesso que ando a portar-me um bocadinho mal. É complicado para mim mudar totalmente de género depois de ler uma distopia. Este é um daqueles livros que nos deixam com sensações reais, físicas. Fazem-nos parar para pensar, refletir e falar sobre aquilo que lemos. Se por um lado é complicado passar ao livro seguinte, é também complicado ler outro do género. É demasiado pesado e se forem leitores como eu, que investem bastante de vós nas leituras, chega a ser cansativo. É por isso que quem me segue no Goodreads tem visto aquilo assim meio que parado. Este fim de semana volto à carga, prometo! - até porque estou a ler Vinhas da Ira, de John Steinbeck. 

 

Mas este post não é propriamente sobre a minha lentidão a ler, até porque este livro, A História de Uma Serva, foi lido em menos de uma semana. Logo à partida, este livro tinha três grandes pontos a seu favor: a autora de quem gosto muito, o facto de ser a inspiração para aquela que é, provavelmente, a minha série preferida de 2017 e o facto de ser uma distopia. Já fiz review de alguns livros que contam histórias de futuros distópicos, mais ou menos distantes, e já sabem que este é um dos meus géneros literários preferidos. No entanto, não pensem que A História de Uma Serva é apenas mais uma distopia. 

 

É bastante comum vermos nestas histórias uma clara oposição entre o bem e o mal. A História de Uma Serva nem sequer chega a ser a história dessa luta. Contada na primeira pessoa, pela personagem DeFred - que quer dizer, literalmente, pertencente a Fred - A História de Uma Serva aproxima-se muito mais de um relato da realidade em que esta personagem e tantas outras mulheres iguais a ela viviam, do que propriamente de uma história de oposição. Mais de resiliência, se quiserem.  

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A ação passa-se nos Estados Unidos da América que já nem sequer têm esse nome. A democracia deu lugar a uma teocracia em que as instituições religiosas exercem o poder de forma violenta e extremamente repressiva, adotando o Livro do Génesis como base para as suas leis e formas de vida. Esta é uma parte da história que nos deixa especialmente curiosos enquanto leitores, porque queremos saber como é que as coisas chegaram a esse ponto e como é que a democracia é deitada por terra. Sabemos que, na altura descrita no livro, as liberdades nas suas mais variadas formas deixaram de existir há não muito tempo e isso deixa-nos sempre a querer mais respostas. No entanto, faz sentido que não as tenhamos, porque a própria personagem principal, enquanto serva, tem um acesso muito limitado a esse tipo de informações. É um aspeto muito inteligente da parte da autora, mas que deixa os leitores cheios de urticária. 

 

Este relato torna-se especialmente sombrio e triste quando nos deparamos com a posição social da protagonista. Devido ao contacto dos humanos com produtos tóxicos houve uma quebra da natalidade nunca antes vista, tornando inúmeras mulheres e homens inférteis. Para impedir aquilo que se poderia traduzir no fim da raça humana, são criadas escolas - "centros vermelhos", como são chamados no livro - para as mulheres que ainda se sabiam férteis. Depois de sofrerem as mais cruéis torturas - sobretudo se se oposessem à lavagem cerebral imposta nestes centros - cada serva era atribuída a uma família com o objetivo de gerar um filho a esse casal. Enquanto servas, com roupas vermelhas e chapéus brancos para facilitar a sua identificação - e para que elas próprias nunca se esquecessem de qual o seu lugar - estas mulheres serviam apenas como incubadoras, saltando de casa de família em casa de família. 

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Apesar de ser um livro escrito em 1985, continua a ser um relato muito atual. Obviamente que espero, rezo e luto para que nunca cheguemos sequer perto da realidade descrita nestas páginas, mas a verdade é que a forma como Margaret Atwood fala de temas como o feminismo ou o fanatismo religioso - independentemente da religisão de que estejamos a falar -, é um ótimo ponto de partida para se refletir nos dias de hoje. 

 

Assim, A História de Uma Serva é acima de tudo um relato de solidão e frustação perante as mudanças da vida, mas ao mesmo tempo - e acima de tudo - é um relato de força. Se, por um lado, existem livros como O Deus das Moscas que nos mostra que em situações extremas, o ser humano revela as suas piores características, A História de Uma Serva mostra-nos como é possível, nessas condiçóes adversas e extremas, o ser humano tornar-se maior que si mesmo e lutar até ao fim, mesmo sem a luz ao fundo do túnel. 

 

Sendo alguém que cometeu o erro de ver primeiro a série devo dizer que achei a série (ainda) mais chocante do que o livro. Acho que, nesta história, a parte visual é verdadeiramente fundamental para que nos apercebamos da intensão da autora e do que ela nos quer contar. Sendo que Atwood faz parte da equipa de produção da série, sei que posso confiar nesta afirmação. 

 

No que toca à escrita - e visto que foi o primeiro livro de Margaret Atwood que li -, não me surpreendeu... porque já estava à espera que a senhora fosse absolutamente espetacular. Extremamente poética, complexa e com especial atenção aos detalhes, prende o leitor desde a primeira página até à última - que, a título de nota de rodapé, é um daqueles finais que nos deixa "então, mas... como é que é suposto isto ficar agora??". Recomendo vivamente!

 

Bons livros são (Sinónimo de) Carmezim.

Marta.

 

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Por detrás deste blog está a Marta. Com 23 anos, saloia de gema, criou este cantinho onde vão poder encontrar tudo o que é sinónimo da sua pessoa.

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